Hoje, em algumas partes da Europa, o dia vai escurecer.
Não porque chegou a noite. Não porque uma tempestade cobriu o céu.
Por alguns minutos, a Lua passará diante do Sol e esconderá sua luz. E haverá pessoas que viajaram durante horas — algumas, talvez, durante dias — para estar exatamente no lugar certo quando isso acontecer.
Na Espanha, no norte do país, o fenômeno será especialmente raro. A faixa de totalidade atravessará parte do território espanhol e, ao final da tarde, pouco antes do pôr do sol, o dia dará lugar à escuridão por alguns instantes.
Pense nisso! Durante toda a nossa vida, o Sol esteve lá. Todos os dias. Mesmo quando não o vemos, sabemos que está lá. E, de repente, por alguns minutos, ele desaparece. Não desaparece de verdade, evidentemente. Mas desaparece da nossa vista.
E talvez seja justamente isso que torna um eclipse tão fascinante. Não é apenas aquilo que acontece no céu. É aquilo que acontece dentro de nós quando percebemos que estamos diante de alguma coisa que não podemos apressar, interromper ou repetir.
O eclipse tem hora para começar. Tem hora para terminar. E não espera ninguém. Quem estiver lá, verá. Quem não estiver, terá fotografias, vídeos, relatos, memórias de outras pessoas. Mas não terá aquele instante.
Talvez seja por isso que viajamos.
Durante muitos anos pensei que viajar fosse conhecer lugares. Hoje penso que talvez seja também uma maneira de estar presente quando alguma coisa acontece. Uma paisagem que só encontramos naquele momento. Uma luz que não volta. Uma conversa que não estava programada. Uma pessoa que aparece no caminho. Um pôr do sol que não se repetirá exatamente daquela maneira.
Um eclipse. O acontecimento é breve. A espera é longa. A memória permanece.
Talvez essa seja uma das grandes ironias da vida. Esperamos muito por algumas coisas que duram pouco. E, justamente por durarem pouco, elas podem permanecer conosco por muito tempo.
Quem estiver hoje na Espanha talvez passe anos contando como foi aquele fim de tarde em que o céu escureceu. Quem estiver na Islândia poderá lembrar do frio, do silêncio, das pessoas olhando para cima. A Agência Espacial Europeia, inclusive, preparou uma transmissão do fenômeno para quem não puder estar na faixa de totalidade. E nós, que estamos longe, talvez possamos fazer outra coisa.
Podemos simplesmente lembrar que, enquanto escrevo estas linhas e enquanto você as lê, existe uma parte do mundo olhando para o céu. Isso também é uma forma de viajar.
Não precisamos estar sempre presentes fisicamente para participar daquilo que acontece no mundo. Às vezes basta saber que está acontecendo. E talvez haja nisso uma pequena lição sobre a própria existência. Não controlamos o tempo. Não escolhemos todos os acontecimentos. Não sabemos quando determinada paisagem aparecerá diante de nós pela última vez. Não sabemos quando uma pessoa estará sentada ao nosso lado pela última vez. Não sabemos quando estaremos diante de uma oportunidade que não voltará.
Mas podemos escolher estar atentos. Podemos olhar. Podemos participar. Podemos guardar. Porque a vida, como um eclipse, não pede licença para começar nem para terminar. Ela simplesmente acontece.
E passa.
Por isso, quando o dia escurecer hoje na Europa, talvez valha a pena pensar menos no Sol e um pouco mais em nós mesmos. Em tudo aquilo que esperamos. Em tudo aquilo que passa. E, principalmente, naquilo que permanece.
*O acontecimento é breve.
A espera é longa.
A memória permanece.*
Talvez seja isso que chamamos de viver.
Sobre o colunista :
Fernando Schimidt
Curadoria de viagens, cultura e experiências que permanecem na memória.



