Há coisas que a gente possui sem saber que possui!
Conhecimentos que ficaram esquecidos em alguma gaveta. Experiências que pareciam apenas episódios de uma vida já passada. Lugares que conhecemos tão bem que deixamos de perceber o que realmente aprendemos com eles.
Durante muito tempo, talvez eu tenha cometido esse pequeno erro.
Fui acumulando. Viagens, lugares, pessoas, histórias, idiomas, casas, hóspedes, restaurantes, roteiros, problemas resolvidos, problemas que quase não foram resolvidos, pequenas soluções que funcionaram e outras que não funcionaram de maneira alguma.
Tudo isso foi acontecendo. E a vida foi seguindo.
Até que, em algum momento, descobrimos que aquilo que parecia simplesmente “experiência de vida” pode conter alguma coisa de valor. É aí que começa a garimpagem.
Garimpar não é procurar ouro onde não existe. É olhar novamente para aquilo que já passou pelas nossas mãos e perguntar: o que há aqui que eu não percebi antes?
– Uma viagem pode esconder um roteiro.
– Um roteiro pode esconder uma experiência.
– Uma experiência pode esconder uma história.
-Uma história pode esconder conhecimento…
E conhecimento, quando bem organizado e colocado à disposição de alguém, pode adquirir um valor que não tinha quando estava simplesmente guardado na memória.
Talvez isso aconteça também com as pessoas. Chega um momento em que já não precisamos acumular tantas coisas novas. Podemos começar a revisitar aquilo que já vivemos.
Não necessariamente para viver do passado. Ao contrário. Para descobrir se o passado deixou alguma ferramenta que possa ser útil ao futuro.
Tenho pensado muito nisso ultimamente. Não como quem procura desesperadamente uma nova ocupação, mas como quem abre algumas gavetas antigas e encontra coisas que ainda funcionam. Algumas talvez estejam enferrujadas. Outras precisarão de uma boa limpeza. Algumas provavelmente deverão ser descartadas.
Mas haverá aquelas que, depois de polidas, talvez voltem a funcionar muito bem.
É uma espécie de arqueologia pessoal.
E há algo de fascinante nisso. Porque garimpar também exige paciência.
Não se encontra uma pepita em cada punhado de terra.
Às vezes é preciso peneirar muito material para encontrar uma pequena coisa brilhante. Mas talvez seja justamente essa a graça. Estamos tão acostumados a procurar novidades que esquecemos que algumas das nossas melhores possibilidades podem estar escondidas naquilo que já sabemos.
Talvez a maturidade tenha alguma relação com isso. Menos acumular. Mais selecionar. Menos correr. Mas observar. Menos perguntar “o que ainda preciso aprender?” E, de vez em quando, perguntar: “O que eu já aprendi que ainda não transformei em alguma coisa?”
A garimpagem começa aí. E talvez seja uma boa maneira de começar qualquer novo capítulo.
Sobre o colunista :
Fernando Schimidt
Curadoria de viagens, cultura e experiências que permanecem na memória.



