Viajar não é apenas chegar a um lugar. É descobrir como cada pessoa o habita.
Há uma pergunta que costuma aparecer naturalmente quando alguém começa a planejar uma viagem: “Para onde vamos?”
É uma pergunta importante. Mas, ao longo dos anos, acompanhando viajantes tão diferentes entre si, descobri que existe outra, muito mais reveladora: “Como essa pessoa vive uma viagem?”
Dois passageiros podem desembarcar na mesma cidade, caminhar pelas mesmas ruas, hospedar-se no mesmo hotel e regressar com lembranças completamente diferentes.
Um fotografa fachadas. Outro prefere entrar numa pequena igreja silenciosa. Há quem percorra museus durante horas. Há quem encontre sua melhor recordação sentado numa praça, observando pessoas passarem.
Nenhuma dessas maneiras está errada. Apenas revelam pessoas diferentes diante do mesmo lugar.
Foi convivendo com centenas de viajantes que compreendi uma das lições mais bonitas que o turismo pode oferecer: Não existem apenas destinos diferentes. Existem maneiras diferentes de viver o mesmo destino.
Talvez seja justamente por isso que alguns roteiros permanecem vivos dentro de nós durante tantos anos. Não porque visitamos mais lugares. Mas porque tivemos tempo para vivê-los do nosso próprio jeito.
Um bom roteiro organiza horários. Uma boa viagem respeita pessoas.
E talvez essa seja a verdadeira arte de quem planeja uma experiência: compreender que nenhum destino é maior do que o viajante que o percorre.
No final das contas, viajar nunca foi apenas descobrir o mundo. É também descobrir a maneira única como cada um de nós escolhe habitá-lo.
Sobre o autor
Fernando Schimidt é curador de viagens. Depois de décadas acompanhando viajantes pelos cinco continentes, continua acreditando que as melhores viagens não são as que percorrem mais quilômetros, mas as que permanecem vivas dentro de quem as viveu.



