Durante muito tempo pensei que viajar fosse aprender a partir. Depois descobri que viajar também é aprender a chegar.
Hoje, porém, começo a entender que existe uma terceira etapa, muito mais silenciosa e muito mais rara.
Há momentos em que deixamos de apenas chegar. Passamos a pertencer.
Voltar nunca é simplesmente voltar. Voltamos diferentes. O lugar também mudou. Por algum tempo temos a estranha sensação de que já não pertencemos ao lugar de onde saímos, mas também ainda não pertencemos ao lugar onde estamos.
Talvez por isso tantas pessoas descrevam o retorno como um período de inquietação. Não é apenas uma mudança de endereço. É uma mudança de identidade. Durante semanas procurei entender esse sentimento. Até perceber que pertencimento não se conquista pela razão. Ele acontece devagar. Quase sempre sem que percebamos. Primeiro vem uma caminhada despretensiosa logo cedo.
Depois o cumprimento de um vizinho. O canto insistente de um bem-te-vi. O mercado da esquina. A conversa inesperada. O café tomado sem pressa. De repente, um lugar que antes apenas observávamos começa a nos reconhecer. E nós começamos a reconhecê-lo também.
Foi assim que compreendi uma diferença importante:
Há lugares que visitamos.
Há lugares que atravessamos.
E há lugares que, discretamente, passam a morar dentro de nós.
Talvez seja esse o verdadeiro significado de chegar. Não o instante em que desembarcamos. Nem o dia em que recebemos uma chave. Nem quando aprendemos o nome das ruas.
Chegar acontece quando deixamos de perguntar se pertencemos a um lugar…
…porque percebemos que aquele lugar já pertence à nossa própria história.
Talvez seja por isso que as melhores viagens nunca terminem no aeroporto. Elas continuam vivendo dentro de nós. Porque partir é um acontecimento.
Chegar é uma construção.
E pertencer… é uma das mais belas formas de arte.
Sobre o colunista :
Fernando Schimidt
Curadoria de viagens, cultura e experiências que permanecem na memória.



